+ B A R T HO L O M E U
PELA CLEMÊNCIA DE DEUS ARCEBISPO DE CONSTANTINOPLA-NOVA ROMA E
PATRIACRA ECUMÉNICO
À PLENITUDE DA IGREJA: QUE A GRAÇA, PAZ E CLEMÊNCIA DO CRISTO
RESSSUSCITADO EM GLÓRIA SEJA COM TODOS VÓS
* * *
Tendo percorrido a corrida de luta ascética durante a Santa e Grande Quaresma e
experimentado com compunção a venerável Paixão do Senhor, estamos agora cheios
da luz eterna da Sua Ressurreição esplêndida, pela qual louvamos e glorificamos o Seu
nome transcendente, clamando a mensagem jubilosa ao mundo inteiro: “Cristo
ressuscitou!”
A Ressurreição é o núcleo da fé, da devoção e da esperança dos cristãos ortodoxos. A
vida da Igreja - na sua expressão divina-humana, sacramental e litúrgica, bem como a
espiritual, moral e pastoral, e no bom testemunho acerca da graça que veio em Cristo e
acerca da esperada “ressurreição comum” – incarna e reflecte a aniquilação do poder da
morte através da Cruz e da Ressurreição do nosso Salvador, bem como a libertação do
género humano da “escravidão do mal.” Esta Ressurreição é testemunhada pelos
Santos e Mártires da fé, pela doutrina e etos, mas também a estrutura e a função
canónicas da Igreja, com as santas igrejas, os mosteiros e sítios veneráveis, o zelo
piedoso do clero e o compromisso incondicional dos que deram o seu “ter” e “ser” a
Cristo como monásticos, junto com o phronema ortodoxo dos fiéis e o ímpeto
escatológico da nossa vida eclesiástica como um todo.
Para nós ortodoxos, a celebração da Páscoa não é uma fuga temporária à realidade
mundana e as suas contradições, mas uma proclamação da nossa fé inabalável que o
Redentor da raça de Adão, que venceu a morte pela morte, é o Mestre da história o
eterno Deus de amor “connosco” e “por nós.” A Páscoa é a experiência da certeza de
que Cristo é a Verdade que nos liberta: é a fundação, eixo essencial e horizonte da
nossa vida. “Sem mim nada podeis fazer” (Jo. 15.5). Nenhuma circunstância, “tribulação,
sofrimento, perseguição ou fome, nudez, perigo ou espada” (Rom 8.35) pode separar os
fiéis do amor de Cristo. Esta firme convicção inspira e envigora a nossa criatividade e o
nosso desejo de nos tornar neste mundo “colaboradores de Deus” (1 Cor. 3.9). Garante
que, perante todo o obstáculo e impasse inultrapassável, onde nenhuma solução
humana é concebível, há sempre esperança e perspectiva. “Posso fazer todas as coisas
n’Ele que me fortalece” (Fil. 4.13). No Cristo ressuscitado sabemos que o mal,
independentemente da forma que assume, não tem a palavra final na viagem do ser
humano.
Não obstante, ao mesmo tempo que estamos cheios da gratidão e alegria por este valor
atribuído ao ser humano pelo Senhor da glória, estamos desanimados perante a
violência multifacetada, a injustiça social e a violência contra os direitos humanos no
nosso tempo. “A mensagem radiante da Ressurreição” e o nosso clamor “Cristo
ressuscitou!” reverberam hoje ao lado do som horrendo de armas, os gritos lacerantes
de vítimas inocentes da agressão militar e a situação dos refugiados, entre os quais há
numerosas crianças inocentes. Vimos com os nosso próprios olhos todos estes
problemas durante a nossa visita recente à Polónia, para onde a grande maioria dos
refugiados fugiu. Estamos ao lado e sofremos com o povo piedoso e corajoso da
Ucrânia que portam uma cruz pesada. Rezamos e lutamos pela paz e pela justiça bem
como por todos aqueles que destas são privados. É inimaginável que nós cristãos
fiquemos silenciosos perante a obliteração da dignidade humana. Junto com os vítimas
do conflito militar, quem sofre mais na guerra é a humanidade, que não conseguiu
erradicar a guerra durante a sua longa história. A guerra não só não resolve problemas;
em verdade cria problemas novos e mais complexos. Semeia divisão e ódio; aumenta a
discórdia entre povos. Acreditamos firmemente que os seres humanos são capazes de
viver sem a guerra e a violência.
A Igreja de Cristo funciona de modo ingénito como agente de paz. Não só reza “pela paz
que vem de cima” e a “paz do mundo inteiro,” mas sublinha a importância de todo o
esforço humano para estabelecer a paz. A característica principal de um cristão é ser
“obreiro de paz.” Cristo abençoa os obreiros de paz, cuja luta é a presença tangível de
Deus no mundo e retrata a paz “que ultrapassa todo o entendimento” (Fil. 4.7) na “nova
criação,” o reino celestial do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Como vem judiciosamente
enfatizado no documento do Patriarcado Ecuménico titulado Pela Vida do Mundo, o Etos
Social da Igreja Ortodoxa, a Igreja “honra os mártires pela paz como testemunhas do
poder do amor, da bondade da criação nas suas primeiras e últimas formas, e do ideal
do comportamento humano estabelecido por Cristo durante o Seu ministério terrestre” (§
44).
A Páscoa é a festa da liberdade, da alegria e da paz. Louvamos solenemente a
Ressurreição da Cristo através da qual experimentamos a nossa co-ressurreição. E
adoramos fielmente o grande mistério da Economia Divina e partilhamos a “festa que
nos é comum a todos.” Neste espírito, da sede d Igreja de Constantinopla, que participa
eternamente na Cruz e na Ressurreição do Senhor, vos enviamos, honoráveis irmãos
hierarcas e filhos bem-amados, a nossa saudação pascoal mais sincera, invocando
sobre vós a graça e a clemência de Cristo o Deus de todos que aniquilou o Hades e nos
concedeu a vida eterna.
No Fanar, Santa Páscoa 2020
+ Bartolomeu de Constantinopla
O vosso suplicante fervente diante do Senhor Ressuscitado